Sarre: o Milagre de Berna passa por aqui

Você sabe: a Alemanha conquistou o primeiro de seus três títulos mundiais na Copa de 1954, com a geração de Fritz Walter derrotando a Hungria de Ferenc Puskas na final – a história é base do belo filme de Sönke Wortmann que dá nome a este post. No entanto, o que você talvez não saiba é que, para chegar lá, a então Alemanha Ocidental teve que passar pela seleção do Sarre, justamente um dos 16 estados federados que compõem o país na atualidade.

Localizada no sudoeste alemão, a região do Sarre já foi ocupada por celtas, romanos, franconianos e franceses ao longo de sua história. No século XIX, após ser palco da Guerra Franco-Prussiana, o Sarre foi anexado ao Império Alemão. No entanto, em meio a tanta instabilidade política, o Sarre viveu breve e complexo período de independência, iniciado em 1918, logo após o término da I Guerra Mundial.

Rico em carvão mineral e bastante industrializado, o Sarre foi governado pela Liga das Nações até a década de 30, o que o manteve fora do Terceiro Reich. Consequentemente, a região era considerada uma alternativa aos alemães contrários ao nazismo no início da II Guerra Mundial. Assim foi até o fim da guerra, quando o Sarre passou a ser governado pela França com o nome de Protetorado de Sarre. Isso durou até 1955, quando a população do Sarre votou contra a independência da região. Assim, o Sarre foi anexado em definitivo à Alemanha em 1° de janeiro de 1957.

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A rigor, a história do Protetorado do Sarre começa em 1947 e termina em 1956. Neste intervalo, porém, houve tempo para que a região disputasse os Jogos Olímpicos de 1952, em Helsinque e as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1954. Não com uma seleção nacional (ou national mannschaft em alemão), uma vez que a população não se via como uma nação independente, e sim, com um “selecionado” (ou Auswahl).

A origem da equipe dos Saarländischer data de 25 de julho de 1948, quando foi fundada a Saarländischer Fußballbund. A SFB era responsável pela organização do campeonato local (Ehrenliga, disputada por três temporadas entre 1948 e 1951) e pela composição da “seleção” local. Assim, em 22 de novembro de 1950, o Sarre ia pela primeira vez a campo como uma equipe, formada por 11 jogadores de três equipes locais: FC Saarbrücken, Borussia Neunkirchen e FC 1912 Ensdorf. Logo em seu primeiro jogo, diante do time B da Suíça, o Sarre venceu por 5 a 3, graças a dois gols de Herbert Martin, dois de Erich Leibenguth e um de Karl Berg.

Foi também em 1950 que o Sarre foi aceito no quadro da Fifa. Inscrito para as Eliminatórias da Copa de 1954, o time foi alertado de que poderia enfrentar a Alemanha Ocidental na briga por uma vaga no Mundial que seria disputado na Suíça. Foi o que aconteceu.

Até a estreia nas Eliminatórias, o Sarre disputou seis jogos, com três vitórias (5 a 3 sobre Suíça B, 3 a 2 sobre Áustria B e 5 a 2 sobre Suíça B) e três derrotas (4 a 1 para a Áustria B, 1 a 0 para a França B e 3 a 1 para a mesma França B). Com este retrospecto, o time estreou em sua chave no qualificatório europeu, enfrentando a Noruega fora de casa. Resultado: uma surpreendente vitória por 3 a 2, com gols de Herbert Binkert, Werner Otto e Gerhard Siedl.

Como a Noruega empatou o segundo jogo da chave com a Alemanha Ocidental por 1 a 1, o Sarre chegou a liderar a zona de classificação por alguns meses – mais exatamente entre agosto e outubro de 1953. Porém, perdeu para a Alemanha por 3 a 0 em Stuttgart e deixou a primeira colocação da chave escapar.

Um empate com a Noruega em Saarbrücken em novembro deixou o Sarre, comandado pelo técnico Helmut Schoen, empatado com os alemães na liderança da chave (três pontos em quatro jogos cada). Porém, duas vitórias nos dois últimos jogos colocaram os alemães na Copa do Mundo – 5 a 1 sobre a Noruega em Hamburgo e 3 a 1 sobre o Sarre em Saarbrücken.

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Max Morlock marca o segundo dos três gols da Alemanha
sobre Sarre; era o fim do sonho sarrês de ir à Copa do Mundo

Fora do Mundial, o Sarre ainda disputou em casa um amistoso preparatório contra o então campeão Uruguai antes do Mundial de 1954 (derrota por 7 a 1). Após a Copa do Mundo e do título da Alemanha Ocidental, o Sarre disputou outras oito partidas em sua história, sempre comandado por Helmut Schoen. Porém, sem a mesma motivação e com sua anexação à própria Alemanha Ocidental já encaminhada, a equipe conseguiu apenas uma vitória (7 a 5 sobre a França B, em outubro de 1955), dois empates e cinco derrotas.

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Sarre antes do primeiro jogo contra a Noruega em 1953. Em pé: Waldemar Philippi,
Werner Otto, Peter Momber, Karl Schirra, Herbert Martin, Herbert Binkert e
Kurt Clemens. Agachados: Albert Keck, Theodor Puff, Erwin Strempel e Gerhard Siedl

A partir de 1957, a SFB deixou de ser membro da Fifa e passou a integrar a DFB como uma federação regional, agora batizada de Saarländischer Fußballverband. Mesmo assim, o futebol do Sarre deixou um importante legado para o futebol alemão. Além de Helmut Schoen, campeão mundial com a Alemanha Ocidental em 1974, o futebol da região ainda contou com Hermann Neuberger, fundador da Bundesliga, organizador do Mundial de 1974 e presidente da DFB entre 1975 e 1992.

Informações e fotos: Wikipedia, RSSSF, La Redó! e When Saturday Comes

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Grandes azarões da Copa: Coreia do Norte

Matheus Trunk

Disputar uma primeira fase de Copa do Mundo contra Brasil, Portugal e Costa do Marfim não é tarefa fácil para nenhuma seleção. Ainda mais para Coreia do Norte, que ficou 44 anos sem disputar a competição.

Em 1966, os norte-coreanos fizeram história na Copa da Inglaterra. O selecionado de Pyongyang venceu a Itália e conseguiu se classificar para a segunda fase. A eliminação dos asiáticos viria no jogo de quartas-de-final contra Portugal do craque Eusébio. Os lusitanos venceram por 5 a 3.

O craque da Coreia naquele mundial foi o meia Pak Doo Ik. Membro do exército norte-coreano, após a Copa ele chegou a ser promovido a sargento. A trajetória da seleção local em 66 foi abordada pelo interessante documentário The Game Of Their Lives, do cineasta inglês Daniel Gordon.

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Time da Coreia do Norte fez história em 1966

As publicações estrangeiras apontam o atual time norte-coreano como a grande zebra da Copa da África. Nas Eliminatórias, o treinador Kim Jong-Hun armou uma forte retranca que surpreendeu os adversários. O time perdeu somente dois jogos em oito disputados.

O grande destaque da seleção local é o atacante Jong Tae-Se, que é conhecido como “Rooney da Ásia” e atua no Kawasaki Frontale do Japão. O meia An Yong Hak (Omiya Ardija-JAP) e o atacante Hong Yong Jo (Rostov-RUS) são os outros jogadores do elenco que atuam fora da Coreia.

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Após 44 anos, Coreia volta a disputar uma Copa

A Coreia do Norte é um dos poucos países do mundo que permanece socialista. O ditador Kim Jong-il afirmou que somente irá permitir a exibição dos jogos na televisão no dia seguinte, caso o time ganhe.

Em 5 de novembro de 2009, os norte-coreanos fizeram um amistoso contra o Atlético Sorocaba, clube da série A-2 do futebol paulista. A partida foi realizada no estádio Kim II-Sung, em Pyongyang, capital do país. O Última Divisão conversou com Edu Marangon, técnico do Atlético Sorocaba naquele jogo. Confira os melhores trechos da entrevista:

Última Divisão: Qual é a principal característica do time da Coreia do Norte?
Edu Marangon:
Eles se baseiam no estilo oriental de jogo. Isso quer dizer que a Coreia procura impor ao adversário uma marcação muito forte. Dessa maneira, eles conseguem desenvolver um ataque de muita velocidade.

UD: Como foi o jogo do Atlético contra a Coreia? Como era o estádio local?
EM:
O estádio da capital norte-coreana tem capacidade para 70 mil pessoas e estava completamente lotado. Ainda restaram quase 30 mil pessoas nas ruas, fora do estádio. Um detalhe era que a grama utilizada era sintética. Isso acabou dificultando um pouco a adaptação da nossa equipe ao campo deles.

UD: Durante a estadia na Coreia, vocês perceberam como o país é fechado politicamente?
EM:
Sim. A Coreia do Norte possui um regime político bastante fechado. Durante os cinco dias que ficamos no país, todos os membros da nossa delegação foram vigiados por agentes do governo local.

UD: As publicações internacionais dizem que o time asiático não irá muito longe nas Eliminatórias. Você também acredita nisso?
EM:
Aprendi que o futebol é um esporte que sempre apresenta novidades. Mas não acredito que a Coreia siga em frente por dois motivos: as limitações técnicas da equipe e a falta de experiência do elenco. Essas são duas grandes desvantagens que irão dificultar bastante o avanço deles para a próxima fase da Copa.

UD: Você acha que o Brasil terá dificuldades em passar pelo time norte-coreano?
EM:
Não. A diferença técnica entre as duas seleções é muito grande. A qualidade técnica do jogador brasileiro sempre faz a diferença.

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Aconteceu mesmo!

Filiação a Fifa: 1958
Posição no Ranking da Fifa: 106º
Principais equipes locais: Amrokgang, April 25, Pyongyang City, Rimyongsul e Wolmedo
Grande craque atual: Jong Tae-Se (Kawasaki Frontale-JAP)

Matheus Trunk é pesquisador, jornalista e palmeirense; edita também a Revista Zingu!, especializada em cinema.

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