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Jul

13

Exercício de reflexão sobre a imagem e os meios de comunicação

Filed Under (Futebol Paulista) by admin on 13-07-2008

Ler um jornal diariamente é hoje um exercício que bate de frente com a velocidade costumeira dos nossos dias. Se considerarmos apenas os cadernos de nosso interesse (vou supor aqui um total de três deles, o caderno geral, o da cidade e o de esportes), é possível afirmar que leva-se de 30 minutos a uma hora para lê-los, ainda que não na íntegra. É um tempo nada desprezível, tendo em vista que durante essa leitura muitas outras coisas ficam tentando a nossa atenção, entre elas a televisão e a internet, com notícias certamente mais atuais e uma dinâmica bem mais atraente.

Justamente por isso, é correto afirmar que o jornal precisa encontrar meios para chamar a nossa atenção e tornar a sua leitura o menos enfadonha possível. Um desses meios é a imagem, a fotografia, que freqüentemente estampa as primeiras capas dos jornais simplesmente por ser chocante ou inusitada, não sendo necessariamente um retrato de uma notícia relevante. Tudo porque vivemos no que Beatriz Sarlo chama de “uma cultura fundada na visão”, onde o que importa é termos algo para ver.

Olavo Bilac, em seu texto “Fotojornalismo”, já em 1901 decretava o fim do jornalismo escrito e dizia que este seria substituído completamente pelas fotogravuras, uma vez que “o público tem pressa” e “não admite leituras demoradas”. Pois bem, há mais de 100 anos o perfil do público continua o mesmo, ainda que o decreto de Bilac não tenha se concretizado. Mas o poder da imagem está fortalecido, sem dúvida: as imagens precisam estar na pauta para atrair mais a atenção das pessoas. E ai de quem publicar um jornal ou revista sem figuras.

Bilac explica que a força da fotografia está na sua capacidade de retratar as notícias sem abrir brechas para contradições e divergências, algo comum quando se noticia um fato por meio de palavras. No entanto, ainda que a lente de uma câmera não possa mentir, “os mentirosos podem fotografar” (é o que lembra Peter Burke, no texto “Como confiar em fotografias”). E aí a fotografia abre espaço para todo o tipo de influência que o dono da câmera possa vir a exercer sobre ela, desde o enquadramento da foto até montagens no cenário.

Por isso mesmo Burke acredita que é preciso desenvolver técnicas de “crítica da imagem”, ou seja, aguçar as nossas mentes a fim de perceber o que há por trás de cada imagem: por que ela foi publicada em determinado espaço da diagramação, por que tal enquadramento foi escolhido, e – acredito que esse seja o ponto mais importante – o que o veículo ou fotógrafo está querendo nos dizer e por quais motivos.

Mais ainda, aplicar essas técnicas também enquanto assistimos a televisão é um exercício fundamental para os dias de hoje, uma vez que ela pode ser considerada como o “imenso animatógrafo” imaginado por Bilac no início do século XX, onde dezenas de imagens são veiculadas a cada minuto, uma atrás da outra.

É evidente, entretanto, que a prática de tal exercício é dificultada exatamente pela imensa quantidade de imagens veiculadas, o que, de acordo com Beatriz Sarlo, em seu texto “O sonho acordado”, supera a “nossa capacidade de reter seus conteúdos”.

Mesmo assim, tendo em vista que nada é transmitido ou publicado sem que haja a intenção de estimular algo no espectador/leitor, cultivar um olhar crítico é sempre a melhor maneira para crescer profissionalmente e realizar um trabalho cada vez mais pertinente para o público.

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Jul

13

Pontos sobre a vista

Filed Under (Futebol Internacional) by admin on 13-07-2008

Tagged Under : bilac, virgil

Ter ou não ter a visão, eis a questão (que fica depois de conhecermos a história de Virgil, relatada no livro de Oliver Sacks Um Antropólogo em Marte). Cego desde a infância, Virgil recupera a visão anos depois por meio de uma operação médica, mas as dificuldades encontradas por ele para levar uma vida normal, de uma pessoa que enxerga, se mostram bem maiores do que se imaginava ser, chegando a superar as da época da cegueira. Isso porque não bastava a ele ter apenas a capacidade de enxergar: mais do que isso, ele precisava ser capaz de compreender o que se estava vendo, faculdade que não lhe foi apreendida no decorrer da sua vida.

É sob este mesmo eixo que gira também a discussão no filme Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho, que reúne depoimentos de diversas pessoas, entre escritores, estudiosos e deficientes visuais, para demonstrar opiniões variadas sobre o tema “visão”. E aqui, assim como no texto de Sacks, a conclusão que se tira é basicamente a mesma: por mais que sejamos capazes de enxergar, a maneira como vemos as coisas depende muito mais de outros fatores do que simplesmente ter esta capacidade.

“Vemos em parte com os olhos”, diz o cineasta Wim Wenders, no filme Janela da Alma. Tal afirmação se mostra verdadeira quando, por exemplo, nos damos conta de que só reconhecemos os objetos à nossa volta porque passamos a vida inteira aprendendo a reconhecê-los, ou seja, depois de anos de experiência. É justamente pela falta dessa vivência com o mundo visual que Virgil, assim que teve sua visão recuperada, não conseguia distinguir um gato de um cachorro sem que os tocasse.

Mais do que isso, nossa visão sofre também influência dos conceitos e sentimentos adquiridos e criados por meio da nossa própria existência, assim como ela não deixa de ser seletiva, uma vez que os olhos estão sempre enquadrando a realidade que nos circunda, revelando-a apenas parcialmente. Esta característica, da “seleção do que vemos”, fica clara quando um dos entrevistados diz ter o seu campo de visão totalmente sujeito às lentes dos seus óculos, ou seja, apenas o que cabe sob o seu diâmetro é o que ele enxerga.

No entanto, ainda que tenhamos o conhecimento desses pontos, é preciso considerar alguns fatores externos que também determinam nosso modo de ver (e entender) o mundo. E aqui falamos de tudo aquilo que está constantemente chegando aos nossos olhos, desde fotos em revistas até filmes que passam no cinema. A maneira como vemos as imagens e como elas são apresentadas a nós influenciam profundamente a nossa compreensão do mundo, na medida em que é por meio delas que podemos saber o que se passa em cada canto do planeta e, mais ainda, refletir sobre a nossa existência (os filmes, neste caso, ocupam uma posição de destaque).

Mas a máxima de que são tantas as imagens que vemos que, no fim, não vemos nada, não pode ser deixada de lado neste ponto. O problema é que, se dependemos tanto delas, o que fazer para não se deixar levar por essa avalanche visual? A resposta parece ser única e direta, ainda que não muito simples: aprender a ver. Esta e a lição mais importante a ser tomada, e não apenas por Virgil, que precisava aprender a reconhecer visualmente tudo à sua volta, mas também por aqueles que são capazes de enxergar, mas (como diz José Saramago, no filme Janela da Alma) vivem em uma situação análoga àquela descrita na “caverna de Platão”, vendo imagens (sombras) ininterruptamente e acreditando piamente que estas são a realidade.

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    • July 2008
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